Começando pelo básico: Como a Filosofia moldou a Psicanálise?
Freud não inventou tudo do zero; ele bebeu de fontes filosóficas antigas e modernas. Por exemplo, pense em René Descartes, o filósofo francês do século XVII famoso pela frase “Penso, logo existo”. Descartes acreditava que a mente era clara e racional, mas Freud virou isso de cabeça para baixo. Inspirado em Friedrich Nietzsche, um pensador alemão do século XIX que criticava a ideia de que somos sempre racionais, Freud mostrou que há um inconsciente poderoso por trás de nossos pensamentos. Nietzsche, em seu livro Assim Falou Zaratustra (1883-1885), falava do “eterno retorno” – a ideia de que a vida se repete infinitamente, forçando-nos a aceitar o caos e os impulsos selvagens. Freud pegou isso e criou a teoria das pulsões: forças como o desejo de viver (Eros) e o impulso de destruição (Thanatos) que borbulham no inconsciente, explicando por que às vezes agimos de forma impulsiva, como em brigas ou sonhos estranhos. Aqui, a Filosofia dá à Psicanálise uma base para questionar a ilusão de controle total sobre nós mesmos. Em vez de sermos donos absolutos da nossa mente, somos influenciados por forças profundas e invisíveis.
Outro tema central é a subjetividade – ou seja, como cada pessoa percebe e constrói sua própria realidade. Martin Heidegger, um filósofo alemão do século XX, em Ser e Tempo (1927), descreve o ser humano como Dasein, que significa “ser-aí” ou nossa forma de existir no mundo. Para Heidegger, vivemos em um mundo de relações, marcado pela angústia e pela busca de sentido em meio ao tempo que passa. Freud ecoa isso ao falar do inconsciente como uma camada escondida da nossa subjetividade. Não somos só o que pensamos conscientemente; há memórias recalcadas e desejos que moldam nossas escolhas diárias, como por que evitamos certas conversas ou repetimos padrões ruins em relacionamentos.
Heidegger ajuda a Psicanálise a ver o humano não como isolado, mas como parte de um mundo maior. Essa ligação mostra como a Filosofia enriquece a Psicanálise, tornando-a mais do que uma terapia – uma forma de entender nossa existência.
Agora, perguntemo-nos: como a Psicanálise se relaciona com a Filosofia?
Ela traz perspectivas frescas para debates antigos, como o conflito entre determinismo (tudo é causado por forças que não controlamos) e liberdade (podemos escolher nosso caminho). Immanuel Kant, no século XVIII, em Crítica da Razão Pura (1781), defendia que somos livres para agir eticamente, mesmo em um mundo de causas e efeitos. Mas Jacques Lacan, um psicanalista francês que expandiu as ideias de Freud nos anos 1950, desafia isso. Em Escritos (1966), Lacan diz que o sujeito é “barrado” – dividido entre o que queremos e o que a sociedade e a linguagem nos impõem. Usando ideias de linguística, ele explica que nosso desejo é moldado pelo “Outro“, como regras familiares ou culturais que nos alienam de nós mesmos. Isso lembra Michel Foucault, outro filósofo francês, que em As Palavras e as Coisas (1966) mostra como o poder e o conhecimento constroem quem somos, através de discursos que controlam o que pensamos ser “normal”. Lacan adiciona o toque psicanalítico: o inconsciente revela que nossa liberdade é limitada por repetições compulsivas, como vícios ou medos irracionais. Assim, a Psicanálise leva a Filosofia a considerar o humano como frágil e conflituoso, não um ser perfeito. Jean-Paul Sartre, existencialista francês em O Ser e o Nada (1943), falava da “náusea” da liberdade absoluta; Lacan aprofunda isso, mostrando que o desejo nos condena a uma busca eterna, cheia de ilusões.
Essas conexões vão além de livros velhos; elas tocam nossa vida real. Na era das redes sociais, onde postamos uma versão “perfeita” de nós mesmos, a Psicanálise nos lembra do inconsciente por trás das curtidas e invejas, enquanto a Filosofia nos ajuda a questionar se isso é autêntico. Temas como ética – como tratar o outro com empatia – ganham nova luz: Freud e Lacan sugerem que a moral surge do reconhecimento do desejo alheio, ecoando Kant, mas com o peso do trauma humano. A riqueza dessa intersecção está na complexidade: não há respostas simples. A Filosofia evita que a Psicanálise caia em biologismo puro, e a Psicanálise humaniza a abstração filosófica, ancorando-a em histórias reais de sofrimento e alegria.
Em resumo, Filosofia e Psicanálise são como duas lanternas iluminando o mesmo caminho escuro da mente humana. Juntas, elas revelam que somos mais do que aparentamos: seres de desejos ocultos, em busca de sentido em um mundo incerto.
Referências Bibliográficas
DESCARTES, René (1637). Discurso do método Tradução de Maria Ermantina Galvão Gomes Pereira e outros. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
FOUCAULT, Michel (1966). As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes, 2016.
FREUD, Sigmund (1900). A interpretação dos sonhos. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1994.
HEIDEGGER, Martin (1927). Ser e tempo. Tradução de Marcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes, 2015.
KANT, Immanuel (1781). Crítica da razão pura. Tradução de Monique Hulshof. São Paulo: Vozes, 2016.
LACAN, Jacques (1966). Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
NIETZSCHE, Friedrich (1883-1885). Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
SARTRE, Jean-Paul (1943). O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução de Paulo Perdigão. Petrópolis: Vozes, 1997.
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Realmente todas essas idéias citadas é tudo que sabemos mas não aprendemos conduzir nós mesmos quando nos negamos mesmo consciente, o inconsciente é o todo onde poderíamos ser de certa forma nós mesmos. Mas tem que ser pensado a sociedade e como ela foi transformando no tempo e no espaço, sem esquecer a corrida para ser o melhor,o mais bonito, perfeito etc . Mas não é assim ,somos complexo e esquisitos.
Com certeza, Maria! Não nos esqueçamos do zeitgeist, o espírito da época.
E é exatamente essa nossa complexidade que tanto nos instiga em permear os saberes da filosofia e Psicanálise.
Achei maravilhoso adorei !
Que bom, que gostou, Julia! Prof. Rodrigo Marques sempre nos oferecendo pérolas de saberes.